O Fantasma da Evasão

Sem fórmula mágica ou diagnóstico preciso, controlar a permanência dos alunos na faculdade está atrelado a um conjunto de medidas em constante implantação e acompanhamento  pela instituição de ensino.

De todos os problemas que afligem gestores de instituições de ensino superior, empreender ações para o controle da evasão universitária segue sendo o que provoca maiores dúvidas com relação à eficácia e comprovação dos resultados. Segundo especialistas, a dificuldade de prever a desistência da faculdade pelo aluno se dá porque normalmente a evasão ocorre por vários motivos acumulados, que são inclusive acobertados pelo próprio estudante. A solução recomendada é então combinar iniciativas de acompanhamento e motivação dos alunos para antever o problema e combatê-lo antes de consumado.

Entre os exemplos de ações empreendidas vale tudo. Nos Estados Unidos, o Olin College resolveu atacar no currículo e trouxe para o início dos cursos de engenharia as disciplinas práticas. A justificativa para a mudança é envolver os alunos, dando a eles a chance de experimentar a rotina da profissão já nos primeiros anos de estudo e, assim, fazendo-os se sentirem mais motivados a permanecer no curso.

Para a consultora educacional Maria Beatriz de Carvalho Melo Lobo, vice-presidente do Instituto Lobo e especialista em gestão universitária, antecipar componentes curriculares, com disciplinas mais práticas sendo ministradas logo no início do curso, pode ajudar. Mas não é algo que deve ser feito de forma aleatória e sim como parte de um projeto pedagógico pensado para ter este perfil. “Uma medida como a tomada pelo Olin College, sozinha, só será eficiente se for detectado que a grande causa da evasão para aqueles alunos é a falta de contato com a prática nos primeiros anos do curso. De forma geral, é preciso um conjunto de ações para atacar essa síndrome”, explica Maria Beatriz.

A consultora lembra que a atitude tomada pelo Olin College nem chega a ser uma novidade no meio universitário. “A Poli [faculdade de engenharia da USP] já fazia isso em 2001, com projetos de engenharia no primeiro ano”, diz.

Ana Cristina Canettieri, especialista em educação e diretora da Cadec, empresa de capacitação e desenvolvimento educacional, vai além. Segundo ela, a atratividade de uma aula não está necessariamente atrelada à forma teórica ou prática com que é ministrada. “Há matérias teóricas ministradas com tamanha competência que se tornam atraentes para os alunos, da mesma forma que há aulas práticas cansativas. Assim, não creio que o simples deslocamento de matérias mais práticas para o começo do curso seja, por si, suficientemente capaz de despertar no aluno mais interesse no conteúdo do curso”, diz Ana Cristina.

Falta de empenho

Se não é a fórmula mágica para combater a evasão, a medida tomada pelo Olin College traz à tona um assunto que costuma ser ignorado pelo governo e pelas próprias instituições. O Ministério da Educação (MEC) não calcula dados de evasão no Censo da Educação Superior, embora seja o único órgão a ter todas as condições para isso. “É a prova de que a evasão não é levada a sério no Brasil. E as instituições também não fazem um bom acompanhamento disso. Todos se importam demais com o ingresso do aluno e quase nada em mantê-lo”, denuncia a consultora.

Apesar de não haver dados oficiais sobre a evasão anual da educação superior no Brasil, uma pesquisa feita pelo Instituto Lobo indica que a taxa fica em torno de 22% para o conjunto de cursos superiores presenciais, sendo mais elevada nas instituições privadas (25%) do que nas públicas (11%).

Os números da evasão também se refletem em alto custo financeiro, de acordo com o estudo feito por Solano Portela, diretor Educacional da Universidade Mackenzie, que estima os custos da evasão para uma instituição. Segundo ele, se a evasão é de 25%, com uma mensalidade média de R$ 500,00, só a perda anual de receita para cada mil alunos é de R$ 375.000,00. Uma instituição com 20 mil alunos chegaria a perder com a evasão R$ 7.500.000,00 a cada ano.

Somado ao impacto da perda financeira das mensalidades que deixam de ser pagas pelos alunos evadidos, Maurício Berbel, consultor da Alabama Consultoria Educacional, ressalta haver o prejuízo de manter turmas com poucos alunos até a conclusão do curso. “O custo dessa evasão deve incluir o prejuízo de se ter uma turma pequena demais, tendo de pagar o corpo docente, manter as instalações etc. É um valor mais difícil de calcular”, diz Berbel.

Difícil diagnóstico

Há uma evasão considerada “natural” e que deve fazer parte do planejamento institucional, explica Ana Cristina. Dentre as causas naturais, a mais significativa é a mobilidade. Os alunos mudam de bairro, de município, de estado, de país e, por esta razão, acabam por não concluir o curso na mesma instituição. Outra causa natural é a morte. Fora estas situações excepcionais, há uma série de outras causas que levam um aluno a evadir-se.

Embora a justificativa financeira seja, quase sempre, a primeira a ser mencionada por alunos e instituições de ensino, esta não é a maior vilã da evasão. Uma sugestão para ajudar os alunos que se encontram com dificuldades para arcar com os custos da faculdade, segundo Berbel, é orientá-los financeiramente. “Um trabalho de orientação feito com os ingressantes, que os ajude a organizar o orçamento, pode diminuir a evasão”, diz Berbel, que já experimentou, com sucesso, essa experiência quando trabalhava na Faculdades Integradas Teresa D’Ávila (Fatea), em Lorena (veja mais na versão da matéria no site da revista).

Maria Beatriz ressalta que, na maior parte das vezes, o aluno usa a desculpa financeira para esconder uma decisão anterior de não continuar seus estudos. Aos gestores que querem diferenciar aqueles que realmente se evadem por problemas financeiros dos que se evadem por outras razões, ela dá uma dica: quem desiste por questões estritamente financeiras normalmente tem um histórico na instituição de busca de descontos, bolsas, negociações e outras tentativas de solução. Se isso não ocorreu, provavelmente, o problema financeiro não foi a maior causa da evasão desse aluno.

Um problema de fato é a formação básica deficiente. Muitos alunos chegam aos bancos universitários com claras deficiências acadêmicas. A instituição precisa cuidar para que esses alunos não fiquem tão atrasados em relação aos demais a ponto de acreditar que sua integração ao programa do curso seja impossível. “É preciso fazer o nivelamento do estudante, conhecer o que ele sabe e adequar o curso ao acompanhamento dele”, explica Maria Beatriz.

Uma ideia é criar programas especiais que atendam às necessidades específicas desses alunos. Ana Cristina menciona a criação de cursos de nivelamento de estudos como uma boa possibilidade. “As instituições também podem criar Núcleos de Escrita, a exemplo do que existe nas universidades americanas de ponta”, sugere Ana Cristina.

Choque de realidade

De nada adianta tudo isso, se o aluno estiver matriculado no curso errado. Por imaturidade, muitos escolhem que graduação cursar tendo poucas informações sobre as opções disponíveis ou a rotina da vida profissional. Um caminho apontado por Berbel para auxiliar os estudantes a fazer a escolha certa seriam os cursos organizados em ciclos básicos. Eles permitem que os alunos tenham mais conhecimento sobre certa área antes de fazer a opção definitiva.

Apesar de o foco estar centrado no aluno – afinal, é ele quem decide abandonar o curso –, as instituições também deveriam se colocar no centro dos projetos de combate à evasão. Isto porque, segundo os especialistas consultados, a decepção com a instituição e com os professores é outra grande causa de evasão. Chamada de “desencanto” por Ana Cristina, ela abarca desde a irritação com a precariedade dos serviços oferecidos e a atenção dada pela instituição até a decepção com os professores, vistos como pouco motivados ou incapazes de ensinar.

Aliada à decepção está a falta de integração do estudante ao novo ambiente. Maria Beatriz explica que isso ocorre em várias vertentes: o estudante precisa sentir-se confortável no acompanhamento dos estudos, na aceitação pelos colegas, enfim, no atendimento como um todo. É preciso haver compatibilidade entre o aluno e a instituição, pois, quando a integração é incompleta e o aluno não é capaz de atender às demandas dos sistemas acadêmicos e sociais da instituição, ele rompe seus laços, deixando-a, explica Maria Beatriz. Em poucas palavras, o aluno precisa se sentir “acolhido” para não evadir.

Ana Cristina lembra, ainda, que no ensino superior o aluno passa a ser tratado, da noite para o dia, como “adulto”, apto a decidir sobre tudo que diz respeito ao novo ambiente acadêmico. Para ela, uma forma de combate à evasão é dispensar atenção às necessidades do aluno, especialmente no primeiro semestre, para mitigar o impacto da mudança de tratamento que estava acostumado a receber no ensino médio. “Ele precisa elaborar projetos de pesquisa, apresentar seminários, organizar suas atividades complementares e de estágio, dentre outros aspectos. Para muitos pode ser assustador”, diz Ana Cristina.

De acordo com os consultores, é essencial que a instituição tenha um setor responsável pelo combate à evasão. “Precisa haver um programa, com metodologia científica, que faça estatísticas que identifiquem os índices de evasão de cada curso, suas causas e proponha soluções”, diz Maria Beatriz.

Autor: Patrícia Pereira
Fonte: Revista “Ensino Superior”

PEREIRA, Patrícia. O fantasma da evasão. Ensino Superior, São Paulo, v. 16, n. 184, p.36-39, fev. 2014.

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